IA desenvolvida no Ifes reduz subjetividade no mercado de Rochas Ornamentais
Projeto desenvolvido no campus Cachoeiro utiliza visão computacional para padronizar a classificação de chapas de granito e mármore com promessa de precificação mais justa e redução de desperdícios na cadeia produtiva
A região sul do Espírito Santo é historicamente reconhecida como o maior polo produtor e processador de rochas ornamentais do país. No entanto, mesmo em um setor consolidado, um desafio técnico antigo persistia nas indústrias: a subjetividade humana na hora de classificar a qualidade de cada chapa. Para resolver essa dor de mercado, estudantes e pesquisadores do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) campus Cachoeiro de Itapemirim desenvolveram uma solução inovadora baseada em Inteligência Artificial.
O projeto está incubado no instituto sob o nome Hartheus AI, consiste em um sistema de IA voltado para a marcação automatizada das rochas. Na prática, a tecnologia substitui a avaliação visual do inspetor, que muitas vezes varia de profissional para profissional, por um mapeamento digital preciso.
"O grande problema que existe no ramo de rochas ornamentais é a subjetividade na marcação da rocha. Diferentes funcionários podem marcar uma fissura como um veio, ou uma oxidação como uma mancha. É uma decisão muito arbitrária, e isso muda o preço do produto, porque quanto mais fissuras ou defeitos ela possui, menos vai valer", explica um dos idealizadores do projeto, Henrique Oliveira.
Rotina intensa e o funcionamento da tecnologia
A maturidade do software é fruto de uma rotina intensa de pesquisa e desenvolvimento de tecnologia aplicada dentro do Laboratório de Automação e Inovação em Rochas (Lair). Para dar conta da complexidade do projeto, os estudantes cumprem uma carga horária rigorosa de 20 horas semanais dedicadas exclusivamente às atividades de refinamento da inteligência artificial.
O sistema opera por meio de visão computacional: o inspetor envia a imagem da chapa de granito ou mármore para a plataforma, e o software devolve a imagem completamente segmentada. De forma autônoma, a IA identifica, delimita e separa o que são fissuras estruturais, manchas e oxidações na superfície do material.
Para alcançar esse nível de precisão, a equipe enfrentou a complexidade natural da geologia. Foram necessários dois anos e dois meses de pesquisa contínua, testes e reformulações de metodologia. O treinamento do algoritmo exigiu a criação de um robusto dataset (banco de dados) contendo milhares de imagens reais, cedidas por uma empresa parceira do setor.
Desafios estéticos e sigilo industrial
Atualmente, o projeto está em sua primeira versão funcional e opera com foco em tipologias litológicas específicas. O próximo passo dos desenvolvedores é ampliar a capacidade de interpretação do sistema para padrões exóticos e complexos. "Existem outras rochas ornamentais em que, às vezes, o material se torna mais bonito e comercialmente valioso justamente por ser mais oxidado ou movimentado", aponta Henrique.
Para contornar essa barreira e ensinar a IA a diferenciar um "defeito" de um "padrão estético exótico", a iniciativa já desenvolveu novas metodologias. Detalhes sobre os próximos passos, contudo, são guardados a sete chaves. "Já possuímos ideias de soluções que vão ser implementadas em breve, mas que fazem parte do nosso sigilo industrial", revela o estudante.
Formação de excelência e vitrine de mercado
O desenvolvimento do Hartheus AI conta com uma equipe de estudantes do curso de Sistemas de Informação do campus: Henrique Machado de Oliveira, Matheus Gimenes de Souza, Andrey Magalhães Silva e Arthur Cesar Figueiredo da Silva. Para os coordenadores do projeto, Rafael da Silva Guimarães e Everson Scherrer Borges, o impacto da iniciativa vai muito além das linhas de código criadas no laboratório.
"Isso deixa claro como o investimento em pesquisa aplicada a problemas reais da indústria, dentro do Ifes, fortalece não apenas a criação de tecnologia, mais também a formação de profissionais", destacam os coordenadores. Eles acrescentam que o trabalho bem estruturado a partir do interior do Estado valida a capacidade que o Lair e a Incubadora local têm de produzir soluções de alta relevância para toda a rede pública de ensino.
O sucesso da solução já começou a romper os muros da academia. O projeto foi selecionado para participar da Cachoeiro Stone Fair, a principal feira do setor produtivo de rochas ornamentais do país, onde ocupará um estande reservado às tecnologias de destaque. Segundo a coordenação, a oportunidade consolida o principal objetivo do Hartheus AI desde a sua fundação: estreitar de forma prática a conexão entre a pesquisa científica, a extensão e o setor produtivo nacional.
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